Marcha para Jesus 2015 em Parintins: sucesso ou vergonha?

Integrantes da equipe da coordenação da 1ª Marcha para Jesus em Parintins

Integrantes da equipe da coordenação da 1ª Marcha para Jesus em Parintins

Antes de tecer minhas críticas ao evento “Marcha para Jesus”, preciso deixar claro que minha intenção não é falar mal da Igreja de Cristo, da qual eu faço parte, nem das denominações evangélicas. Já tem muitos carniceiros de plantão especializados em fazer isso. Em segundo lugar, não quero “detonar” os pastores e líderes evangélicos que estão na organização do evento, muitos dos quais conheço, pude servi-los e conviver respeitosamente, apesar das diferenças de opinião em alguns aspectos. E, principalmente, meu desejo não é dizer que a Marcha deveria acabar. Até porque, quem sou eu para fazer tal decreto? Aliás, eu mesmo tive o privilégio de ajudar a organizar e realizar, junto com outros irmãos, a primeira Marcha em Parintins, no ano de 2009.

Lembro-me de como foi difícil reunir os líderes evangélicos. As primeiras reuniões que marcávamos apareciam uns poucos “gatos pingados”. Mas nós do ministério Exad (Exército de Adoradores), que “compramos” a ideia de três jovens (Adailton, Radija e Geane), que tinham o desejo de realizar o Marcha, estávamos decididos a realizar o projeto. Enfrentamos oposição de alguns pastores que diziam: “Esse negócio de marcha não é de Deus”. Foram muitos ensaios e, principalmente, momentos de oração e intercessão, para conseguir colocar os evangélicos na rua para “marchar”. De lá para cá já, a Marcha já aconteceu sete vezes. Já comandei trio elétrico; cantei e dancei no palco; pulei e caminhei no meio da multidão. E foi tudo muito bom! “Foi uma benção!”, como dizemos no meio evangélico. Só não participei ano passado, por motivo particular, e nem este ano por não está mais morando em Parintins.

Observando melhor, comecei a perceber que todo investimento, esforço e tempo gasto na “Marcha para Jesus” não gera resultados significativos, nem para a comunidade evangélica e nem para a sociedade parintinense em geral (o que alguns críticos já constataram faz tempo sobre o evento!). A não ser que objetivo do evento seja apenas visibilidade; o que não é, ou pelo menos não era quando se iniciou. Mas tenham calma! Antes que alguns me apedrejem, deixem-me explicar. Vamos responder algumas perguntas:

  1. Qual o objetivo do evento?

Quando participei da organização da Marcha, nossos objetivos eram: expressar publicamente a devoção em Jesus Cristo como Senhor e Salvador; adorá-lo com músicas e outras expressões artísticas (dança e teatro, por exemplo, como já aconteceu em outros anos); orar pelas autoridades e pela cidade; e pregar o Evangelho. Considero os objetivos legítimos, no entanto, penso que o entretenimento e o “espetáculo” ofuscam os reais objetivos. O que torna inútil todo o esforço, tempo e recursos investidos no evento, se de fato ele estiver se resumindo ao entretenimento. Claro que se entreter é importante (principalmente para nós crentes, que, não deveríamos, mas temos certa tendência à antipatia), mas pode ser feito de outra maneira. Que maravilha seria se as igrejas se reunissem, com todo esforço e recursos que dispensam à Marcha, para discutir, por exemplo, sobre as seguintes perguntas: “Estamos de fato sendo relevantes para Parintins?”; “O que podemos fazer para impactar mais pessoas com a mensagem de amor e salvação do Evangelho?”; “Quais estratégias usar para alcançar os jovens e reduzir o número daqueles envolvidos com o crime, tráfico e marginalidade?”. Em minha opinião, responder de forma prática a estes questionamentos tornaria a igreja evangélica muito mais relevante para Parintins do que realizar um evento com as características que ele possui hoje.

  1. Qual o problema do prefeito apoiar a Marcha?

Na verdade não há problema algum. A não ser que o gestor não esteja administrando bem os recursos do município, atendendo as demandas prioritárias para melhorar a qualidade de vida da população parintinense. Se ele está cumprindo bem o seu papel ou não, eu não posso dizer, pois não tenho provas concretas. Mas frequentemente vejo postagens de parintinenses nas redes sociais dizendo que a cidade está abandonada. SE isso for verdade, é vergonhoso para qualquer instituição, ainda mais cristã, aceitar a doação de 150 mil reais, que é recurso público, para qualquer evento. Assim como é vergonho todo o investimento feito em eventos como carnaval e festival, que não trazem benefícios concretos e significativos para a população. Me arrisco a dizer que Apalepin daria uma contribuição melhor para a cidade recusando o dinheiro e aconselhando o prefeito a investi-lo em demandas prioritárias da cidade. Penso que justiça social e boas obras tem mais a ver com o Evangelho do que espetáculo e entretenimento.

  1. Quem disse que não posso criticar uma autoridade?

Preciso esclarecer que não pertenço a “turma do wisk” e nunca fui da turma do “carbrás”. Nem sou afiliado a partido político algum. Já votei no ex-prefeito, Bi Garcia, quando acreditava que ele era um bom gestor e também votei no atual prefeito, em 2012 na última eleição, quando tive a esperança de que ele seria o melhor para Parintins. Não demorei para me decepcionar. E tive a honestidade de reconhecer publicamente meu erro nas redes sociais por ter contribuído para que ele ocupasse o cargo que hoje ocupa. Não tenho nada pessoal contra o prefeito. Nunca o desrespeitei e nunca o farei, pois sou cristão. Mas os dois anos que vivi em Parintins e vi sua administração foi tempo suficiente para perceber que ele não está preparando para administrar a cidade. Portanto, quando critico o prefeito não o faço direcionado à sua pessoa, mas sim a aspectos de sua administração que julgo que poderiam melhorar.

  1. Afinal, religião e política se misturam?

É claro que sim. E devem se misturar. Um diálogo saudável entre religião e política é necessário e pode trazer benefícios para a sociedade. O que não pode existir é um vínculo entre igreja e estado. Todos sabem que vivemos em um Estado Laico, onde a Constituição assegura a liberdade e expressão de crenças. Mas o discurso de que “política e religião não se misturam” é uma grande armadilha para manter os cristãos na ignorância política e omissos diante de sistemas e governantes corruptos. Devemos orar e respeitar as autoridades? Claro! Mas a Igreja também possui o papel profético de denunciar a corrupção. Basta lembrar dos profetas, que anunciavam o juízo de Deus sobre o povo de Israel e seus líderes, quando estes pecavam e se afastavam do Senhor. Por isso, os cristãos não podem se calar frente a autoridades e sistemas corruptos. A Igreja precisa sinalizar a justiça de Deus, ser porta-voz da verdade e combater todo tipo de corrupção.

  1. Por que tanta polêmica sobre a Marcha de 2015?

O principal problema é transformar o palco do evento em palanque político. Desde os primeiros anos a coordenação do evento tinha essa preocupação. Pedíamos ajuda sim e aceitávamos de quem dava, contanto que não fosse de fonte ilícita ou duvidosa. Convidávamos as autoridades e agradecíamos a todos que ajudavam o evento. Mas nunca demos microfone para nenhum político falar no palco (se estiver errado, podem me corrigir). Se alguém ajuda, ajuda porque quer e porque pode, mas isso não significa, necessariamente, que a coordenação precisa “colocar tal pessoa num pedestal” para tecer agradecimentos demasiadamente no palco do evento. EU NÃO VI, POIS NÃO ESTAVA LÁ, mas SE isso aconteceu, foi um equívoco de quem fez e oportunismo de quem aceitou. Basta um pouco de ética para discernir que não há espaço para esse tipo de coisa no evento, mesmo que em outras festas religiosas ocorra algo semelhante. E não adianta argumentar, dizendo que isso é honrar as autoridades. Isso é desculpa esfarrapada para a tolice de dá espaço para marketing político em um momento de culto a Deus.

Para finalizar, destaco que não pretendo parecer “o dono da verdade” com este texto. Também não quero aproveitar o momento para criticar apenas por criticar. Respeito os pastores e líderes da Apalepin e respeito o prefeito Alexandre. Minha intenção é apenas lançar os devidos questionamentos, que julgo pertinente, ao evento Marcha para Jesus. Se falei alguma inverdade neste texto, nem perca tempo refutando, apenas desconsidere, “jogue no lixo minhas palavras”.

Que Deus abençoe nossa cidade, Parintins, e tenha misericórdia de nós, evangélicos, que perdemos tempo com tantas besteiras, gastamos recursos com coisas inúteis e, por vezes, envergonhamos o evangelho. Lembremo-nos que adorar Jesus não se resume em eventos, músicas, espetáculos, na verdade, muitas vezes, não tem nada a ver com isso. Denunciar a corrupção, lutar pela justiça social, praticar boas obras, sem as quais nossa fé é morta, e pregar o evangelho simples de forma simples, isso sim pode impactar positivamente a sociedade e revelar a glória do Deus que adoramos.

Em Cristo,

Phelipe Marques Reis.

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