O relato de um pai recém-nascido

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Escrevo este texto com a clareza que minhas palavras não conseguirão traduzir plenamente a experiência que quero descrever. Na verdade, nenhum livro, nenhum manual, nenhum guia será capaz de fazer isso com precisão. Mesmo assim, vou tentar explicar aquele momento, que, para mim, é paradoxal. E, de antemão, peço que me perdoem se eu cair em lugares comuns, nos quais um relato como este facilmente escorrega.

Num quarto, enquanto esperamos, aquelas que já experimentaram trazer ao mundo uma vida, entram com um semblante cansado, que logo é dissipado pelo sorriso. Histórias e vidas diferentes – uma vivência em comum. Vivência de dor e alegria que convida a um papo como daquelas vizinhas que já se conhecem há anos. Mas, na verdade, o que faz com que se reconheçam uma na outra é o mesmo instinto que cada uma carrega dentro de si.

Dificilmente vou esquecer daquela noite. A noite que nunca terminava. Após 5 horas de dores, junto com as minhas forças, meu vocabulário também se esgotou e não existia mais palavra alguma que conseguisse acalmá-la. A noite mais longa, até hoje. Mas, na verdade, o que eu senti não importa; não se compara nenhum pouco ao cansaço e dor que ela sentia em cima daquela cama. Ali, o grito de dor ignora o pedido de silêncio fixado na parede. Nada pode contê-lo. Ela chora e grita. Quer desistir daquilo que tanto sonhou e pediu: um parto normal e humanizado.

Naquele momento, eu e ela, mesmo tentando, não conseguíamos mais ser fortes. Nossos semblantes não conseguiam esconder toda nossa fragilidade. Mas não podíamos parar nem voltar a trás. Diante da fragilidade, minha e dela, era preciso força. Não a força bruta da médica grosseira, impaciente e insensível. Mas sim a força da mãe e a força da vida, que vai nascer.

É do ser, aparentemente tão frágil, que vem o sinal de esperança para a mamãe, quando ela já está esgotada. Nesse momento, em que convergem a fragilidade e a força de um ser tão pequeno, percebemos que o ápice está perto. É preciso um pouco mais de paciência e força.

Pela janela, os primeiros raios do sol começam a quebrar a escuridão da madrugada e anunciar o novo dia. Já passam das cinco da manhã. Finalmente vamos para a sala onde os profissionais dizem que os bebês devem nascer. Pai e mãe recobram o ânimo e a força. Me aproximo do seu rosto, visivelmente exausto, olho em seus olhos e digo: “Nossa filha está vindo, ela vai chegar. Você precisa continuar sendo forte. Você está conseguindo!”.

Desse momento em diante, tudo o que a mãe leu, pesquisou e planejou para ter um parto humanizado já não era o que mais importava, mas sim ter em seus braços o seu rebento. Mesmo com dores intensas e extremamente cansada, ela está plenamente consciente que precisa se esforçar um pouco mais. E ela faz isso: respira, segura o ar e faz força. Uma, duas, três vezes… Ofegante, emocionado e pasmo, falo: “Ela está saindo”. Em segundos, a força e a fragilidade se encontram: Elis nasce [precisamente às 5 horas e 40 minutos do dia 14 de agosto do ano 2015]. Não é preciso mais fazer nada, só contemplar o presente que o Criador nos dá. Vermelhinha, ela chora, e chora alto, quando o ar penetra em seus pequenos pulmões pela primeira vez.

Passados mais de 12 horas, finalmente e felizmente podemos segurar a Elis em nossos braços. Junto com os primeiros raios de sol daquela manhã, nasce Elis e simultaneamente ocorrem outros dois nascimentos, pois quando nasce uma filha, nasce também uma mãe e um pai. Sim! Esse pai que redige esse relato é um pai recém-nascido com apenas 26 dias numa jornada de aprendizagem, que está só começando. Junto com Elis, eu e Luíze vamos aprender. E a primeira coisa que precisamos aprender é ser filhos [de Deus] – desfrutar da paternidade divina. Só então poderemos aprender a ser pai, mãe e filho, tudo ao mesmo tempo.

Phelipe Marques Reis.

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4 comentários sobre “O relato de um pai recém-nascido

  1. Muito lindo o seu testemunho Phelipe e Luize, realmente vivenciamos um nascer de novo. E muito interessante porque é exatamente isso que o Senhor faz conosco, nos “desconstrói” e nos faz ressurgir para o novo, para o que há de mais sublime… nascemos para Ele..
    Deus continue abençoando vocês… e parabéns pela oportunidade de serem pais da “Elis”.!

  2. Deus é bom o tempo todo, o tempo todo Deus é bom… Emocionada estou com seu relato mano, talvez não consiga expressar em palavras o que senti ao ler estas linhas, mesmo porque não cabem em simples palavras. O milagre da vida é a prova inquestionável do amor de Deus pelos seus filhos por isso que talvez aconteça de uma forma tão mágica, assim como foi a de Elis.
    Oro pra que Deus continue os abençoando e tornando-os grandes pais para nossa pequena.
    Abraços!

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