Banho no tanque, jambo e mijacão: memórias de um curumim

Vó Camé

Vó Camé

Algumas das minhas melhores lembranças da infância são do tempo que passava na casa da minha avó paterna – a vovó Camé. Embora eu seja péssimo de memória, tem algumas coisas que a minha avó fazia que eu recordo com muita clareza. Lembro que ela pegava o peixe, misturava com farinha, claro, amassava com a mão, fazia um “bilotinho” e dava na nossa boca, na minha e dos outros netos. Lembro do remédio que ela fez para curar um “mijacão” que deu no meu pé (pra quem não sabe, mijacão é o mesmo que frieira, uma coceira muito gostosa que dá no pé depois que a gente brinca de rolar na areia – aquela areia que está cheia daquilo que o gato enterra). O mijacão vai subindo pela a perna do curumim até chegar no joelho, a não ser que sua avó faça o remédio que a vovó Camé fazia. Ela pegava uma porção de querosene, que a gente comprava no “Seu Demontiê” – uma mercearia que fica na esquina da rua 31 de Março com a rua Armando Prado –, e misturava com um pouco de tabaco que usava para colocar no cachimbo [naquela época ela ainda fumava]. Se tinha mais algum “ingrediente” eu não sei, pelo que lembro era isso. Mas isso também não vem ao caso, o importante é que o remédio fazia efeito e o mijacão sumia. Lembro do banho gostoso que a gente tomava na beira do tanque. Mais o melhor mesmo era entrar no tanque, o que só podia acontecer se fosse escondido, claro. E o jambeiro que tinha no quintal? Apanhei e comi muito jambo em cima daquele jambeiro, que ficava perto do galinheiro. Ah! Também não tem como esquecer do galinheiro do vovô Ernesto. Era lá que ele dava uma soneca todo dia depois do almoço, na cadeira de pano. Ai daquele que desse um pio na hora da soneca dele. Não que ele fosse uma pessoa ruim, ele só não gostava que interrompesse a soneca dele ou atrapalhasse o momento em que rezava o terço. Caso algum dos netos fizesse alguma presepada num destes momentos, ele não segurava a língua, era palavrão pra todo lado. Mas não fique com uma má impressão dele, o vovô Ernesto era uma boa pessoa, dormindo. Entre as poucas boas lembranças, não esqueço da música que a vovó Camé cantava pra mim. Aliás, acho que pra mim e pra todos os netos, bisnetos, etc. Ela sentava na rede dela, no canto da cozinha, perto da janela, me pegava no colo e cantarolava: “Eu não sou daqui, sou de Nhamundá. Eu vim pra cá pra arrumar garota. Eu vim pra cá pra arrumar garota”. Agora não me pergunte que idade eu tinha pra lembrar disso, pois não sei. Só sei que era assim! E como a vó Camé cantava, o curumim de Nhamundá “arrumou garota”, uma soteropolitana, e agora já é até pai. E como ele gostaria de ter mais lembranças do tempo de curumim, da vovó Camé, do vovô Ernesto, para, futuramente, contar pra cunhantazinha dele, que hoje está com um pouco mais de um mês de vida. Mas como a memória é “fraca”, então ele escreve. Escreve para que a memória não se perca no tempo. Escreve porque acredita que vale a pena manter vivas as memórias familiares, dos velhos e velhas. Acredita que vale a pena ouvi-los cantar. Vale a pena sentar com eles no fim da tarde em frente à casa para ver o movimento da rua e ouvi-los contar suas histórias, mesmo que seja a história repetida da última visita. Afinal, eles têm uma vida toda, cheia de histórias e experiências para que deixemos se perder no tempo. É preciso olhar para eles, dá ouvidos a eles, aprender com eles como viver a vida de forma que se possa deixar aos outros, pelo menos, boas lembranças.

Em homenagem a vó Camé, que dia 27 de dezembro de 2015 completará 90 anos.

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2 comentários sobre “Banho no tanque, jambo e mijacão: memórias de um curumim

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