Missão, encarnação e justiça: Análise do filme “Descalço sobre a terra vermelha”

Por Phelipe Reis
Lições que os missionários podem aprender com Dom Pedro Casaldáliga[1]

035579.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxNão precisamos voltar muito atrás na história – nem meio século – para identificar figuras fora do protestantismo, com as quais temos muito a aprender sobre missões. O poeta, missionário e sacerdote católico, Dom Pedro María Casaldáliga, é um desses personagens, cujo serviço missionário é retratado na minissérie “Descalço sobre a terra vermelha”[2]. É baseado nessa obra que destaco algumas lições que nós, missionários, temos que aprender com Dom Pedro Casaldáliga. Mas antes, deixe-me apresentar a obra e seu contexto.

“Descalço sobre a terra vermelha” é uma obra que inspira missão e paixão. A minissérie mostra a luta de Dom Pedro María Casaldáliga ao lado dos pobres e dos indígenas pelo direito a terra e contra a exploração que esse povo sofria sob o poder de grandes fazendeiros, em São Félix do Araguaia[3], Mato Grosso.

casaldaligavaticano_0_grandeO primeiro capítulo começa com a visita de Casaldáliga ao Vaticano, quando ele se apresentou ao Papa João Paulo II e ao cardeal Joseph Ratzinger, para dar explicações a cerca da sua ação teológica e pastoral. Pedro Casaldáliga estava sendo convidado a assinar um documento, no qual negaria seus ensinos e pronunciamentos a respeito da opção da Igreja pelos pobres[4] e sua denuncia da exploração dos pobres pelos grandes latifundiários. A conversa com Ratzinger é permeada pelas lembranças do bispo, que escolheu lutar ao lado dos mais fracos e oprimidos.

Casaldáliga, natural de Barcelona, veio como missionário para o Brasil em 1968, quando o país ainda vivia sob o regime ditatorial militar. Com 40 anos de idade, na época, foi trabalhar em São Félix do Araguaia, onde se deparou com uma triste e sofrida realidade. Além da pobreza, uma epidemia de malária estava matando dezenas de crianças e o povo era refém dos jagunços dos fazendeiros, que exploravam a mão de obra do povo e cada vez mais estendiam as cercas de suas propriedades, expulsando a qualquer custo quem se opusesse.

Em oposição aos latifundiários, que se apropriaram das terras à base da grilagem[5], o padre francês Jentel liderava um grupo de posseiros[6], ao norte do Mato Grosso, que lutavam pelo direito a um pedaço de terra, onde pudessem plantar e viver. Quando necessário, diante das ameaças dos jagunços, usavam armas para se defender.

Indignado e compadecido com a realidade que presenciou na região, Casaldáliga tenta buscar apoio junto a seus superiores, tenta dialogar com os fazendeiros, mas não obtém êxito. Vendo o sofrimento do povo, ele entende que precisa tomar uma posição. Escolhe defender os pobres, lutar ao lado dos mais fracos, pois acreditava que essa postura estava mais próxima do Evangelho. Ele decide não se calar, não ser conivente com a injustiça que era praticada pelos latifundiários da região.

Feita a devida introdução, vejamos o que podemos aprender com Casaldáliga sobre missão, encarnação e justiça.

O missionário precisa manter profundo senso de compromisso com a missão
Não podemos esquecer o motivo da nossa missão”

Numa perspectiva missionária, o trabalho de Dom Pedro Casaldáliga é mostrado como um exemplo muito positivo e inspirador, no que se refere ao comprometimento e a paixão[7], que se espera de alguém que crê estar imbuído de uma missão. É justamente esse profundo senso de missão que faz o bispo enfrentar as dificuldades da selva amazônica, as ameaças de morte, o cerceamento da liberdade pela Ditadura e todo um sistema de exploração, que se legitimava em nome do progresso.

A coragem de enfrentar poderosos, a renúncia a uma vida confortável, a opção pela simplicidade, a compaixão pelos mais necessitados e a disposição de entregar a própria vida por outras pessoas, fazem do padre católico um paradigma missiológico exemplar e desafiador, da mesma forma que muitos outros homens e mulheres da história das missões protestantes. É impossível negar ou diminuir o fato de que Casaldáliga foi um exemplo de missionário; ele que travou uma luta por princípios cristãos legítimos, como a justiça e o direito dos mais necessitados terem uma terra para cultivar e viver de forma digna.

Enquanto nós, evangélicos, temos a forte tendência de espiritualizar e restringir a resolução dos problemas sociais ao campo da “falação”, Casaldáliga mostrou com sua práxis, de forma concreta, os princípios do reino de justiça. Ele trouxe para perto do povo uma demonstração do reino de Deus, que será pleno no futuro escatológico.

O avanço do Evangelho não pode ser confundido com o avanço denominacional

indigenas_grandeUm dos aspectos da estratégia desenvolvimentista para a Amazônia, empreendida pelo governo militar, consistia na doação de grandes propriedades a fazendeiros, para que estes explorassem a terra, desmatando e transformando em pasto para criação de gado, sem considerar os direitos dos indígenas e comunidades tradicionais que moravam naquele território, muito menos a degradação causada ao meio ambiente pelo desmatamento desordenado e pelo cultivo da agropecuária extensiva. Era o progresso a qualquer custo.

Ao que se parece, o modelo de evangelização católico era semelhante no seguinte aspecto: a igreja católica enviava os padres missionários para um determinado lugar, a fim de que se fundasse uma prelazia e ali as pessoas fossem catequizadas. O importante era apenas a presença da igreja católica e não sua influência e consequente transformação da comunidade.

Um dos diálogos entre Casaldáliga e um fazendeiro esclarece muito bem o que as pessoas esperavam da igreja católica e de um padre: apenas que realizasse as missas e enterrasse os mortos, nada mais. Entretanto, Casaldáliga subverte essa lógica desde o início de seu trabalho, quando pergunta ao seu ajudante se era mais importante deter a epidemia de malária, que estava dizimando o povo, ou construir a igreja.

Ainda hoje, algumas denominações evangélicas também apresentam uma visão missionária com semelhanças aos modelos acima. A preocupação maior destas é estabelecer uma igreja da sua denominação, sem necessariamente atentar para as necessidades da comunidade e tentar saná-las ou minimizá-las. Muitas vezes, mesmo quando já existe uma igreja de outra denominação no local, ainda sim é encarada como um vácuo missionário, um lugar a ser alcançado. São modelos que visam a expansão da denominação e não do Evangelho do Reino.

A Igreja sempre fez política
“Quando abusam do pobre, Jesus está sendo abusado”

Parece ridículo afirmar isso, hoje, mas é necessário: ninguém é apolítico, nem a igreja. Aliás, a Igreja sempre fez política, como o próprio Casaldáliga disse a Ratzinger. E para ele, a Igreja precisava se posicionar ao lado dos mais pobres, pois, por muito tempo, estava sendo usada pelo capitalismo. Ao se posicionar ao lado dos mais necessitados a igreja estaria se aproximando mais da mensagem do Evangelho, segundo Casaldáliga.

Muito convicto de suas crenças e conceitos teológicos, Casaldáliga dizia que a igreja não podia falar apenas do pecado pessoal, mas precisava também falar contra o pecado social. “As pessoas pecam, naturalmente, dentro das estruturas [pecaminosas] que construíram”, afirma o padre no diálogo com Ratzinger. Para ele, o próprio latifúndio é um pecado [social] que precisava ser denunciado e combatido.

Para manter o compromisso com a missão, às vezes é preciso recusar o convite para desfrutar dos privilégios dos poderosos. Não apenas isso, mas também ter firmeza, convicção e coragem para se opor e enfrentar os quem detem o poder, quando for necessário.

O serviço cristão engajado é a forma de comunicação que ninguém deixa de compreender [contextualização e encarnação]
“A gente desse país vale muito a pena!”

A ação pastoral do bispo reflete uma teologia muito contextual, que considera as necessidades e peculiaridades do local e busca tornar o evangelho relevante na comunidade, acessível para quem vive naquele contexto, sem abrir mão dos princípios e valores fundamentais da fé. Isso fica bem explícito no filme quando Casaldáliga tem a oportunidade de pegar em armas para se defender, defender “seu povo” e “sua causa”, mas ele não faz isso. Por mais que a sua vida e de seus companheiros estivessem sendo ameaçadas, ele decide lutar de forma pacífica, sem pegar em armas.

Outra cena que exemplifica bastante a contextualização empreendida pelo bispo é quando ele faz uma viagem pelas comunidades para ouvir as pessoas e suas necessidades. “Ouvir o outro” é um elemento imprescindível não somente para a evangelização, mas do próprio “ser” cristão. Ouvir o outro é demonstrar respeito, mostrar que sua história de vida, seus problemas, suas angústias merecem atenção. Mostrar que essa “gente” vale muito a pena!

Embora tivesse um objetivo estabelecido – construir a igreja –, a ação missionária de Casaldáliga precisou mudar e se adequar às necessidades do local. Assim ele passou a trabalhar segundo as peculiaridades do contexto de São Félix. Essa flexibilidade é fundamental para a obra missionária. Aquele que pretende seguir seu projeto a risca, sempre será surpreendido pela realidade.

Casaldáliga foi instrumento para devolver a humanidade e dignidade dos indígenas e demais povos da região do Araguaia. Ele sinalizou o reino de justiça, que será pleno no futuro, mas que já podemos desfrutá-lo parcialmente aqui e agora.

Além de pregar, ele viveu e tornou concreto o Evangelho. Sua estratégia foi a mais efetiva que um missionário poderia usar: a linguagem do amor, do serviço, da ação. Como explica Jonas Resende:

A igreja deve estar desperta para o fato de que a linguagem das mãos, o serviço cristão engajado – é a forma de comunicação que ninguém deixa de compreender. De quase nada adianta o uso de todos os veículos comunicativos se nossa mensagem não se fizer ação. As palavras do filósofo aqui também se aplicariam: “O que tu és fala tão alta que não posso ouvir o que tu dizes!”.[8]

Quem ouviu e viu o Evangelho por meio do discurso e atitudes de Casaldáliga, viu alguém que encarnou, de fato, o Evangelho e lutou pelos princípios do reino, sobretudo pela justiça.

A paixão realística
“A utopia é necessária”

Casaldáliga tinha paixão pela missão que acreditava estar imbuído. Mas não era uma paixão ingênua, tão pouco romântica, era uma paixão muito realística. E era essa paixão que o empurrava para cumprir sua vocação, mesmo quando a desânimo se abateu sobre ele, como o filme mostrou em alguns momentos. Afinal, mesmo com todas suas virtudes, que podem fazer com que alguns queiram torná-lo um herói, Casaldáliga é tão humano como qualquer um de nós. E, talvez seja essa sua maior virtude: conseguir transmitir o evangelho de forma tão humana como o fez, se compadecendo e sofrendo a dor do outro, se indignando com as injustiças contra os pobres, cuidando dos desamparados. Nada tão diferente do que Jesus fez, conforme a narrativa de Mateus:

“Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do reino e curando todas as enfermidades e doenças. Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor” (9.35,36) [grifo nosso].

4d9f5117-abac-42d1-b070-3c27fb6805d3Olhar a vida e obra de Casaldáliga é muito útil num tempo em que parece estarmos perdendo a capacidade e sensibilidade de ter compaixão do sofrimento do outro. Estamos comendo, bebendo e nos servindo dos mesmos privilégios e conforto dos poderosos e nos esquecendo de estender a mão para quem precisa. Não podemos nos fechar em nossos grandiosos templos confortáveis e compactuar com as injustiças. É preciso sinalizar de forma concreta os princípios e valores do reino de Deus, que foi inaugurado por Jesus e está presente entre nós. Pode soar exagero, mas eu incluiria facilmente Dom Pedro Casaldáliga na lista de “homens dos quais o mundo não é digno” (Hebreus 12.38).

Assista a minissérie completa
Episódio I – Do Vaticano ao Araguaia [54:41].
Episódio II – Por uma igreja da Amazônia [55:04].
Episódio III – Ameaça de morte [54:40].

Frases de Casaldáliga no filme

“O contrário da fé não é dúvida, é o medo”.

“Eu tenho a poesia. A poesia me salva da dúvida e do medo”.

“A gente desse país vale muito a pena!”

“A ordem é um mal e o progresso é uma mentira”.

“Quando abusam do pobre, Jesus está sendo abusado”.

“Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”.

Notas:
[1] Esta reflexão resultou da análise da obra “Descalço sobre a terra vermelha”, exibida pela professora Miriam Zanutti, na disciplina História de Missões, parte do currículo do curso de Missão Integral do Centro Evangélico de Missões.
[2] Em formato de minissérie, dividida em três capítulos, a obra dirigida pelo cineasta Oriol Ferrer é resultado da coprodução entre a TVC, a TVE, a TV Brasil, a brasileira Raiz Produções e a Minoria Absoluta, produtora espanhola. A película também foi premiada na Ásia, no Festival de Seul, e pelo New York International TV & Film Awards. A minissérie é baseada na obra homônima de autoria do escritor Francesc Escribano.
[3] São Félix é um município amazônico do Mato Grosso, situado em frente à Ilha do Bananal, numa área de 36.643 km².
[4] Lema de Teologia da Libertação – corrente teológica católica surgida na América Latina nos anos 60 –, da qual Dom Pedro Casaldáliga era defensor.
[5] Prática antiga de envelhecer documentos forjados para conseguir a posse de determinada área de terra. Os papéis falsificados eram colocados em uma caixa com grilos. Com o passar do tempo, a ação dos insetos dava aos documentos uma aparência envelhecida.
[6] Trabalhadores rurais que ocupam um pedaço de terra sem possuir o título de propriedade, onde passam a praticar uma agricultura de subsistência.
[7] Do latim tardio passio-onis, derivado de passus, particípio passado de patī «sofrer», é um termo aplicado a um sentimento muito forte em relação a uma pessoa, objeto ou tema. Uma emoção intensa convincente, um entusiasmo ou um desejo sobre qualquer coisa. É também aplicado para determinar um vívido interesse ou admiração por um ideal, causa ou atividade.
[8] REZENDE, Jonas Neves. Um estudo teológico sobre comunicação. São Paulo: Aste, 1974, p. 39.

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