O bom “bicho do mato” – Uma releitura indígena da parábola do Bom Samaritano

canoas-campos-photosLucas 10.25-37

Para testar Jesus, um líder religioso lhe perguntou: “Mestre, o que preciso fazer para ter a vida eterna?”.

Ele respondeu: “O que está escrito na Lei de Deus? Como a interpreta?”.

Ele disse: “Ame o Senhor seu Deus com toda a paixão, toda a fé, toda inteligência e todas as forças; e ame seu próximo como a você mesmo”.

“Boa resposta!”, disse Jesus. “Faça isso e viverá.”

Querendo fugir da resposta, ele perguntou: “Como saber quem é o ‘próximo’?”.

Jesus respondeu contando uma história:

Na companhia de amigos, um jovem Tukano sobe o rio Negro em direção a São Gabriel da Cachoeira. O município, que fica no noroeste do estado do Amazonas e possui um território maior que Portugal, reunirá, num torneio de futebol, representantes de algumas das 23 etnias indígenas que vivem na região.

Debaixo do forte Sol e o vento quente do calor amazônico, o time dos Tukanos vence a final com uma goleada de 4 a 0 em cima dos Húpd’äh*. O jovem Tukano comemora a vitória com os amigos bebendo caxiri – bebida fermentada feita com beiju de mandioca e manicuera fervida.

Em meio à muvuca do torneio e entre tanto indígenas, o jovem Tukano acaba se perdendo dos amigos. No caminho de volta para embarcação, quando a luz do Sol quase já não ilumina a cidade, o jovem é surpreendido por três assaltantes. Não bastou tomar o pouco dinheiro que ele tinha, os assaltantes o espancam e o ferem no rosto com uma faca, deixando-o sagrando, caído sobre uma grande pedra, que fica à beira do rio.

O soar do sino anuncia que a novena vai começar. Atrasado, o padre da paróquia caminha em direção à igreja. Ao avistar o corpo do jovem franzino à beira do rio, o sacerdote apressa o passo para não se atrasar ainda mais para a celebração. Na volta, quem sabe, poderá dar alguma atenção.

Com a Bíblia debaixo do braço e o violão à mão, o pastor passa pelo mesmo caminho se dirigindo à sua congregação. Vê o rapaz caído, mas não se preocupa. “É só mais um índio bêbado”, pensa. Dá de ombros e segue seu caminho.

Então veio um indígena da etnia Húpd’äh, descendo o caminho em direção ao rio. Ao ver o rapaz, teve compaixão dele. Aproximou-se, limpou o ferimento e passou um pouco de óleo de andiroba. Depois, colocou o jovem em sua canoa, o levou para a casa e cuidou dele.

“Quem você acha que é o próximo do jovem atacado pelos ladrões?”.

“Aquele que cuidou dele. O indígena Húpd’äh”, respondeu o líder religioso.

Jesus concluiu: “Faça a mesma coisa”.

Notas:
*Os Húpd’äh são classificados na etnografia e na etnologia como sendo da família etnolinguística Maku, embora os Húpd’äh não gostem deste nome, pois significa “não-gente”, animal, sem fala, bicho do mato. Indígenas de outras etnias usam Maku quando querem menosprezar os Húpd’äh. [Fonte: Inverso, Marcelo Carvalho, 2014]
**Trechos bíblicos reproduzidos da paráfrase A Mensagem, de Eugene Peterson.
Publicado originalmente no blog Paralelo10.

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