Missão é movimento em direção aos excluídos

PARTE 5

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É impossível analisar o Evangelho de Lucas sem notar como ele inclui e destaca em sua narrativa não só os pobres, mas as diversas personagens excluídas socialmente naquela época, como mulheres, doentes, estrangeiros, crianças e outras pessoas de “má fama”. Não é à toa que “Lucas é chamado de Evangelho dos pobres, daqueles que vivem em pobreza social, dos pecadores, dos publicanos, das mulheres, desprezadas e sem plenos direitos na sociedade, enfim, dos que choram”.[3]

A ênfase da missão de Jesus para os pobres não é aleatória, mas relaciona-se com a própria declaração dele sobre a sua missão, baseada nas palavras de Isaías 61.1-2 –passagem cuja linguagem é a do Jubileu. Em essência, o Jubileu era o ano seguinte ao ciclo de sete períodos de sete anos, a contar da entrada de Israel na Terra da Promessa. Nesse ano, os escravos eram libertos, as dívidas eram canceladas, as terras vendidas eram devolvidas e todo homem retornava à sua família e à sua propriedade ancestral (Lv 25; Dt 15). Um dos propósitos do Jubileu era impedir que alguma família israelita vivesse em pobreza perpétua.

Lucas narra uma série de histórias com mulheres não encontradas nos outros evangelhos: a genealogia de Jesus, que é baseada em uma tradição e se relaciona com Maria, não com José; a pecadora pública, reabilitada pelo perdão durante um banquete (7.36-50); a viúva de Naim, cujo único filho é ressuscitado (7.11-16); um grupo de mulheres como discípulas (8.1-3); o grupo de mulheres que chora sobre Jesus ao longo das ruas de Jerusalém (23.27-31). Lucas também não esquece as outras mulheres conhecidas pelos demais evangelistas: Marta e Maria, irmãs de Lázaro (10.38-42), e as piedosas mulheres aos pés da cruz, o mesmo grupo ao qual é confiado o anúncio da ressurreição (23.49-55; 24.1-11).

Essas mulheres respondem ao evangelho e à pessoa de Jesus com ardor. Elas de fato amam o Senhor; são profundamente agradecidas; percebem todas as necessidades ao dar hospitalidade; escutam com amor, esquecidas de qualquer preocupação; doam o que possuem, seguindo o Senhor até o Calvário, participando vivamente dos seus sofrimentos; não conseguem resignar-se à ideia de terem perdido o Senhor com sua morte e percebem instintivamente o som da sua voz.[4]

Jesus acolhia as pessoas excluídas de maneira nada convencional. Enquanto os discípulos achavam que as crianças atrapalhavam, Jesus as queria por perto e as chamava para junto de si (18.15-16); ele também impunha as mãos sobre os doentes e curava-os (4.40); tocava nos leprosos e os purificava (5.13); sentava-se à mesa com pecadores e publicanos – coletores de impostos que tinham fama de corruptos (5.29-32); se permitia ser tocado por enfermos para que estes fossem curados (6.19); tocou o caixão – ato considerado impuro – para ressuscitar o único filho de uma viúva (7.14); permitiu que uma mulher “pecadora” molhasse seus pés com lágrimas e os lavasse com um caro perfume (7.34-38); se deixou ser tocado por uma mulher que há doze anos sofria de uma hemorragia (8.43-44); decidiu se hospedar na casa de um publicano (19.5).

Missão é movimento em direção às pessoas que muitos não querem por perto. Jesus estava frequentemente acompanhado de gente assim. Eram mulheres, crianças, viúvas, endemoninhados, mendigos, pobres, famintos, oprimidos e doentes – leprosos, paralíticos, cegos, coxos etc. Jesus não desviava seu caminho, não se afastava dessas pessoas. Ele se movia em direção a elas, se aproximava.

Leia mais
Parte 1 – Missão é movimento: reflexões a partir do evangelho de Lucas
Parte 2 – Missão é o Espírito Santo em movimento
Parte 3 – Missão é o Filho do Homem em movimento
Parte 4 – Missão é movimento com muita gente

Notas
[3]STÖGER, Alois. O evangelho segundo Lucas. Coleção Novo Testamento Comentário e Mensagem. Primeira parte. Petrópolis: Vozes, 1984. p. 13.
[4]LANCELLOTTI, Boccali. Comentários ao Evangelho de São Lucas. Petrópolis: Vozes, 1983. p. 24.
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