Quero voltar para a minha casa

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Imagem ilustrativa: Foto de Cristian Newman em Unsplash

Dona Isabel* entrou na pequena capela com um sorriso radiante. Ela estava feliz por encontrar o grupo que viera visitá-la naquela manhã nublada de domingo. Logo que se acomodou em uma das cadeiras brancas, ao lado de Laís, a senhora baixinha e sorridente puxou conversa. Mas quando a jovem visitante perguntou como tinha sido a semana, o sorriso de Isabel sumiu e seus olhos encheram de lágrimas: “Minha filha não vem mais me visitar. Não quero mais ficar aqui, quero voltar para a minha casa”, respondeu ela, com o olhar perdido no horizonte, como quem procura na memória as lembranças da vida em família. Em segundos, o semblante de Isabel se carregou de dor e tristeza, de alguém que vive seus dias de velhice na companhia da solidão o do abandono.

Dona Isabel mora com outros idosos em uma instituição particular de longa permanência, em Viçosa (MG). Não sei há quanto tempo ela está lá e também não sei se, de fato, ela não tem recebido a visita de familiares. Mas eu sei a tristeza que vi no seu olhar e o sentimento de solidão que ela carrega.

Todo domingo, um grupo da Igreja Presbiteriana de Viçosa vai ao local para orar, cantar, conversar um pouco sobre a Palavra de Deus, e, claro, escutar e abraçar os idosos que vivem ali. Reunidos em uma pequena capela, o encontro é simples e dura cerca de uma hora. Não tem liturgia, aparelhos de som, púlpito e pregação expositiva. Nem todos os idosos que moram no Recanto podem descer para a capela, devido seu estado de saúde. Entre os que descem, alguns não falam, outros tem dificuldade para andar, e poucos ainda conversam.

IMG-20180312-WA0009No último domingo, 11 de março, eu pude participar da visita, ou melhor, de uma aula. Isso mesmo, o que era para ser uma simples visita foi, na verdade, uma aula profunda sobre a vida, amor e missão.

Ao olhar o rosto de cada idoso, é impossível se esquivar da primeira lição: reconhecer a fragilidade e efemeridade da vida. Quem tem menos de 40 anos, talvez ainda não tenha pensado nisso, mas a verdade é que, cedo ou tarde, teremos todos que encarar a velhice. Quando nos faltar o vigor e a coragem da juventude, quando nos restarem alguns poucos amigos, quando os filhos tiverem criado asas e alçado voo para outros lugares, será inevitável temer uma doença repentina que nos deixe debilitado e dependente dos outros; ou então temer ser colocado em um asilo. Sim, temos que admitir: somos frágeis e nossa vida passageira. Mas também precisamos lembrar o que diz a Palavra de Deus:

“Serei seu Deus por toda a sua vida, até que seus cabelos fiquem brancos. Eu os criei e cuidarei de vocês, eu os carregarei e os salvarei” (Isaías 46.4).

A segunda lição foi bem prática: se permitir ser os ouvidos de Deus para escutar e os braços de Deus para abraçar aqueles que sentem solitários e abandonados.

“Filhinhos, não nos limitemos a dizer que amamos uns aos outros, demonstremos a verdade por meio de nossas ações” (1 João 3.18).

Por fim, a visita ensinou que Deus quer usar em sua missão gente comum, como eu e você. Precisamos remover do conceito de missão o verniz de glamour ou espetacularização que atribuímos a ela nos últimos tempos e compreender que as tarefas comuns do dia-a-dia, como uma simples visita, também fazem parte da missão reconciliadora de Deus. Lembremos o que diz a Palavra de Deus:

“A religião pura e verdadeira aos olhos de Deus, o Pai, é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tiago 1.27).

Aqui deixo uma dica:

Antes de pensar no “Ide” aos confins da Terra, faça uma visita a um idoso.

e termino com uma oração:

Senhor, meu Criador e Sustentador, te agradeço porque me formaste no útero da minha mãe e me deste o dom da vida. Tu, que conheces cada dia da minha existência, dá-me sabedoria para vivê-los de maneira agradável aos teus olhos. Dá-me sensatez para aproveitar os dias da minha juventude e coragem para enfrentar os dias da minha velhice, “quanto o corpo já não ajudará muito, os músculos estiverem fracos, os passos vacilarem e as juntas endurecerem.  Já não poderei ir para onde que quiser. Tudo estará devagar. Mesmo uma simples caminhada me preocupará. Meu cabelo branco será como um adorno de um frágil corpo”. Dá-me serenidade para entender que estarei a caminho do descanso eterno, e aceitar que “a vida, agradável enquanto durar, logo acabará. Vida frágil como porcelana, preciosa e bela, terminará. Então, o corpo voltará ao pó. O espírito retornará a Deus, que primeiramente soprou”. Amém!


Frases de Paul Tournier sobre a “plenitude da vida”, do livro É Preciso Saber Envelhecer:

Amar uma criança ou um velho é amá-los pelo que são e não pelo que fazem.

Já nos ensinaram a amar melhor as crianças, a nos interessar por elas. Agora é preciso aprender a amar os velhos.

Entre os sofrimentos dos velhos há alguns que são provocados pelos homens: seus preconceitos, sua falta de amor, seu desprezo, a organização da sociedade e a sua iniquidade.

Viver com Deus é participar de sua eternidade; quem tem um pé no infinito pode aceitar sua finitude. Esse passo decisivo, esse nascer para a vida eterna, podemos dar antes da velhice e da proximidade da morte.

*Isabel é um nome fictício.

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2 comentários sobre “Quero voltar para a minha casa

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