Guerreiro meu. Menino eu

Guerreiro eu menino eu

Caçador. Maluco Beleza. Marduk. Dele, guardo boas lembranças: o bom humor de sempre, a serenidade no olhar e o gozo de quem desfrutou leve e levianamente a vida. Como todo boêmio que se preze, curtia os bailes da vida e as serestas das ruas, e quando não podia sair, dava um jeito de trazer a festa para dentro de casa. Mesmo contrariando a patroa, gostava mesmo de molhar o bico em água que passarinho não bebe e declamar seus versos e filosofias de boteco ao som de Zeca Pagodinho, Zé Ramalho e, claro, Raul Seixas – um dos seus favoritos. Na memória deste menino ficou carimbada a lembrança das rodadas com os amigos, as garrafas vazias ao pé das mesas e as tampinhas que seriam a diversão da meninada na manhã seguinte.

Nas águas da Liberdade, ele gostava de se banhar e me colocar sobre os seus ombros. Ali, nas alturas, seguro em suas mãos firmes, não existia brecha para o medo. Eu sabia que eu não cairia e nem me afogaria. Bem diferente do que acontece hoje: beirando os trinta, o menino engatinha na tal vida adulta, buscando trilhar seu caminho, lutando com suas inseguranças e medos, enquanto se esforça para ser um pai e um marido minimamente decente e íntegro.

Pai-filho00Aquelas mãos e ombros firmes que me seguravam nas alturas quando menino, me deixaram cair repentinamente, sem aviso, quando eu tinha vinte anos. Era uma manhã chuvosa qualquer de março. Ele deveria ir ao trabalho normalmente, apresentar na rádio o jornal matutino. Entretanto, deitado no fundo rede, seu corpo inerte e gelado não abriu mais os olhos – dormia para sempre. Com pouco mais de meio século vivido, sem despedir-se de ninguém, foi-se embora. Para Pasárgada de Bandeira, que tanto declamava, espero que não; oxalá para um lugar em que ele seja amigo do rei.

A morte aprofundou tua ausência, que vive em mim a cada amanhecer. Mesmo em vida, nos faltou uma boa dose de conversa e afeto. Não, não ti sentencio. Não mereces ingratidão e injustiça. Sei que fizeste o melhor que pôde. Tu foste guerreiro. Mas o guerreiro se foi e o menino ficou.

Se Gonzaga estiver certo, quando disse que “guerreiros são meninos”, confesso que, quanto a mim, convivo com as sombras do menino – um menino inseguro, perdido, passivo, covarde, com medo. Um menino a quem não faria nenhum mal um pouco mais de carinho, abraço e ternura. Um menino que quer ser forte e guerreiro, mas é frágil. Um menino que sonha, ama e sangra com o peso dos trapos da vida adulta sobre os seus ombros. Trapos, que disfarçados de sensatez e maturidade, tapam o sorriso, sufocam a alegria e ofuscam a gana do menino – outrora todo riso, hoje todo contido.

Mas no olhar e no sorriso da sua Cunhantã Viçosa, o menino preenche a ausência do guerreiro e aprende a despir-se dos trapos que o prendem. Aprende que não precisa matar a alma de menino, aliás, precisa cultivá-la, pois é essa alma de criança que o faz avançar em direção a sonhos ainda não sonhados. E assim, brincando, sorrindo e sonhando, quem sabe um dia o menino-homem coloque sua Cunhantã Viçosa sobre os ombros e sinta-se, pelo menos para ela e por alguns instantes, um menino-guerreiro.

Viçosa, Minas Gerais, 03 de abril de 2018.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s