Os que têm transtornado o mundo, chegaram também aqui

Turma1-Sedec2018

Uma menina do Piauí que aos treze anos de idade trabalhava como atendente de caixa de supermercado. Um curumim criado na beira do rio tomando banho de cuia. Um chileno que cresceu em um orfanato. Uma menina da Bahia que tinha vergonha da casa em que morava. O que poderia unir essas pessoas tão distantes geograficamente? A princípio nada, não fosse a razão em comum que hoje move seus passos e direciona suas vidas: a justiça, a compaixão, a graça e a verdade do reino de Deus. E o que acontece quando estes se encontram com outros cujos corações transbordam dos mesmos sentimentos, indignações e anseios? Quando esse ajuntamento acontece, é como se fosse aceso um caldeirão fervilhando e transbordando de ricas experiências, ideias inovadoras, sonhos e projetos revolucionários. Esse caldeirão, com o sabor do Pará, Rio de Janeiro, Paraná, Mato Grosso do Sul, Bahia, São Paulo, Amazonas, Santa Catarina, Paraguai e outros, também pode ser chamado de Sedec.

Mas o que é esse tal de Sedec e por que ele é o que é? Na verdade, o Sedec nada mais é que um ajuntamento de gente comum, gente que carrega na bagagem da vida histórias de dor, sofrimento, superações, traumas, conquistas, e, claro, sonhos. Gente que, por causa dessa bagagem e do caráter do Mestre que guia suas vidas, se compadece e sofre junto com a menina violentada, o garoto espancado, o adolescente assassinado, a moça explorada, o idoso abandonado, e todos os homens e mulheres que, por causa da maldade enraizada no coração humano, destroem-se mutuamente. Gente que acredita que, sim, há esperança. Não apenas acredita, mas trabalha para que essa esperança brote no coração e transforme a vida e a realidade dos pobres, dos vulneráveis e dos excluídos. Aliás, não poderia ser de outra maneira, já que atenderam ao convite para caminhar com Jesus de Nazaré, o Deus encarnado que habitou entre os homens, cheio de graça e verdade, e que está reconciliando consigo mesmo todas as coisas.

E como seguidores de Jesus de Nazaré, estes homens e mulheres são estranhos: eles estão dispostos a investir seus dons, talentos, recursos, tempo, suas vidas, para que outras vidas e comunidades sejam transformadas, pelo estabelecimento do reino de Deus. Isso mesmo! Alguns já estão com a mão da massa, outros se preparando, mas com o coração ardendo pela transformação. É por isso que estamos todos aqui, curtindo o friozinho de um grau da Fazenda Rio Grande, aprendendo com as experiências e histórias de vida uns dos outros, trocando saberes, compartilhando ferramentas, desconstruindo conceitos e pensamentos equivocados, apreendendo noções para desenvolvermos ações mais efetivas e trazer à existência novos empreendimentos sociais.

Foram oito dias intensos. Ministrações, testemunhos, aulas, confrontos, música, oração, comida, comunhão, partilha: Deus presente. E tudo isso não seria possível sem a disposição de homens e mulheres que nos serviram: cozinhando, limpando, orientando, ouvindo, dando aulas, esclarecendo, administrando. Temos muito a agradecer à equipe do Cadi Fazenda Rio Grande, equipe Cadi Brasil e demais professores e voluntários.

Nossa gratidão à nossa querida Clei e toda sua equipe de cozinha que tornaram esses dias tão saborosos. Nossa gratidão à Ariane, que coordenou os voluntários na mordomia e nos lembrou que em qualquer lugar que estivermos temos que ser bons mordomos. Nossa gratidão à Patrícia, que sempre nos atendeu com tanta gentileza desde os primeiros contatos via e-mail. Representando o corpo docente, nossa gratidão à Angélica, que além de sua generosidade em repartir conosco seu conhecimento e experiência, nos ensinou com sua humildade. Nossa gratidão ao Maurício Cunha. Graças à sua coragem de sonhar e empreender, hoje podemos olhar para a sua história e para a história do CADI e sermos inspirados com sua caminhada e por tantos frutos que dela brotaram.

Mas o Sedec termina e a caminhada continua. Todos vimos que há muito a se fazer. O trabalho é grande e nenhum um pouco fácil. Tendo o Sedec como ponto de partida, sigamos todos com o coração cheio de esperança, com a mente renovada e com os olhos no céu, mas sempre lembrando o que nos disse o poeta-cantor esses dias: “que olhos no céu não nos impedem de juntar as mãos para mudar a terra”. E para que daqui pra frente, estejamos onde estivermos, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, a notícias a nosso respeito seja a mesma que disseram a respeito dos primeiros seguidores de Jesus de Nazaré, escrita em Atos 17.6:

“Estes que têm transtornado o mundo, chegaram também aqui […]”.

Nota: Texto proferido durante a formatura da Turma 1 do Sedec 2018, escrito por Phelipe M. Reis – amazonense, missionário e jornalista, casado com Luíze e pai da Elis.

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